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Jeffrey Pfeffer: Pandemia revelou que empresas são ambientes pouco saudáveis

Em entrevista ao Portal Time de Saúde, professor de Stanford afirma que líderes ignoram gestão baseada em evidências e equilíbrio de vida pessoal e profissional foi comprometido.

Jeffrey Pfeffer

Você já deve ter sentido – ou pelo menos ouviu alguém reclamar – que o trabalho nunca foi tão estressante e danoso para a saúde mental. 

O motivo, de acordo com Jeffrey Pfeffer, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, foi que a pandemia de covid-19 trouxe à tona a falta de cuidado de muitas empresas com a saúde física e mental de seus funcionários.

“Uma vez que as pessoas pararam de trabalhar, foram para o home office, trocaram de emprego ou se viram confrontadas por demandas durante a pandemia, elas perceberam duas coisas: que seus empregadores não se importavam com seu bem-estar; e que a maioria dos ambientes de trabalho opera com práticas comportamentais e físicas pouco saudáveis”, diz o pesquisador em entrevista ao Portal Time de Saúde.

Um dos maiores estudiosos de gestão contemporânea, Pfeffer explica que há décadas se sabe sobre as vantagens de dar aos funcionários mais autonomia e benefícios, “porém muitos líderes não fazem uma gestão baseada em evidências”, explica. “Não há razão para acreditar que com a saúde dos funcionários seria diferente.”

Mesmo as empresas que adotaram o trabalho remoto, que conta com diversos benefícios se for feito da maneira adequada, podem se deparar com estresse ocupacional se não houver cuidado das lideranças. 

“Os números mostraram que (o home office) resultou, muitas vezes, em mais horas trabalhadas. Em muitos casos, o equilíbrio trabalho-família ficou prejudicado, uma vez que as fronteiras entre serviço e descanso erodiram”, afirma Pfeffer. 

“Uma mulher me disse uma vez que vinha desempenhando as funções de professora e CEO ao mesmo tempo. Com as creches e escolas fechadas, essas múltiplas responsabilidades se somavam às horas dedicadas ao trabalho e ao estresse vindo dele”, conta.

Estresse no ambiente de trabalho

Em seu livro Dying for a Paycheck (“Morrendo por um salário”, em tradução literal, publicado em 2018 pela editora Harper Business), Pfeffer argumenta que um emprego de escritório pode ser tão ou mais nocivo do que o de operários em minas de carvão ou plataformas de petróleo.

Isso porque acidentes de trabalho há anos são controlados, enquanto os danos psicológicos de um ambiente tóxico são pouco tangíveis – e, muitas vezes, até encarados como um efeito colateral aceitável da vida moderna e do sucesso profissional.

“As empresas estão adoecendo seus funcionários, os governos não estão fazendo nada sobre isso, e todo mundo paga o preço”, afirma ele na obra na qual faz um diagnóstico dos problemas no ambiente corporativo atual.

No livro, Pfeffer cita uma pesquisa do site WebMD (revisada em 2022) na qual o trabalho foi apontado como a principal causa de estresse – 40% dos trabalhadores dos EUA relatam o problema nas empresas.

De acordo com o estudo, quando alguém enfrenta uma situação de estresse, o sistema nervoso entra em ação, liberando hormônios que “preparam (o corpo) para um conflito”.

O coração dispara, a respiração acelera, os músculos ficam tensos e a pessoa começa a suar. Essa reação costuma ser curta, e o corpo se recupera rapidamente disso.

Porém, se esse sistema é ativado por um longo período, como nos casos de estresse crônico, isso pode agravar ou levar a problemas de saúde, como a depressão, doenças cardíacas, estomacais, na pele e até de fertilidade e ganho de peso.

Da perspectiva biológica, o estresse crônico costuma elevar os níveis de cortisol no corpo, e tal hormônio está intimamente ligado a inflamação sistêmica, aceleração da morte das células e uma saúde precária em geral.

Um estudo realizado por professores da Capital Medical University, na China, e da Wayne State University School of Medicine, nos EUA, revisou e analisou 11 pesquisas publicadas sobre o assunto, com 5.696 pessoas ao todo. A conclusão foi que o estresse está associado também ao aumento do risco de hipertensão.

Para Pfeffer, as causas do estresse ocupacional costumam ser salários baixos, turnos extensos ou inconstantes, pressão o tempo todo, feedbacks que não são construtivos, assédio e bullying.

O professor explica ainda que muitos dos danos à saúde, como problemas mentais e até doenças cardiovasculares, podem ser irreversíveis para a pessoa, chegando a casos extremos de mortes.

Impacto do estresse no custo da empresa

As doenças crônicas vêm crescendo em economias em desenvolvimento, entre elas o Brasil. E a saúde precária cobra um preço enorme: as perdas na produtividade de colaboradores com essas condições correspondem a quatro vezes os custos diretos do tratamento delas.

Problemas causados por um ambiente de trabalho pouco saudável oneram os sistemas de saúde dos países e as próprias empresas, pois resultam também em faltas frequentes, licenças médicas e até demissão voluntária.

Pfeffer menciona em seu livro que, segundo o Instituto Americano do Estresse, o esgotamento causado pelo trabalho custa aos empregadores americanos cerca de US$ 300 bilhões por ano – e US$ 200 bilhões anuais para o sistema de saúde dos EUA.

Por ambientes de trabalho mais saudáveis

Cantinhos da soneca, comida de graça e espaço para o funcionário levar seu cachorro para o trabalho não compensam práticas abusivas no ambiente de trabalho, enfatiza Pfeffer no livro. É preciso ir além e promover mudanças culturais e sociais.

Segundo ele, as sociedades precisam equiparar a emergência climática à crise no modelo de trabalho das empresas, empreendendo movimentos sociais por práticas mais éticas. O bem-estar e a saúde mental e física precisam estar no centro das discussões e políticas públicas.

“Ainda há menos iniciativas organizadas do que o necessário para tornar os locais de trabalho mais saudáveis ​se quisermos reduzir os custos crescentes de saúde”, conclui.


Porque plano de saúde já não é mais suficiente.

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