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Rachel Haddock Lobo: a enfermeira que se dedicou a ensinar

Imagem da enfermeira Rachel Haddock Lobo sentada em frente a uma mesa, com o rosto virado para a câmera. Rachel usa uma roupa branca, com um véu na cabeça, também branco. As mãos dela estão sob um papel.

Quem já passou pela avenida Paulista em São Paulo talvez reconheça o sobrenome. Haddock Lobo é uma das ruas que liga a região dos Jardins à Consolação e faz referência a um médico e político português, Roberto Jorge Haddock Lobo. 

Embora a homenagem seja a ele, quem marcou a história da saúde no Brasil foi sua neta, Rachel Haddock Lobo

Nascida em 1891, no Rio de Janeiro, ela foi enfermeira, fundadora e primeira redatora-chefe da Revista Brasileira de Enfermagem, além de ter sido a primeira diretora brasileira da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na década de 1930. 

O seu papel na área contribuiu tanto para a evolução da enfermagem no Brasil quanto para a formação da chamada “enfermeira ananéri” – profissionais que seguem o estilo humanístico de cuidar, ensinado por Anna Nery.

Enquanto diretora, Haddock Lobo mesclava os conhecimentos adquiridos nas suas duas principais formações, na França e nos EUA, e acreditava que as futuras enfermeiras deveriam amenizar o sofrimento alheio, mas sempre a partir da Ciência. 

“Para ela, a enfermagem tinha que ter uma autonomia, tinha que ser vista como uma Ciência, como uma profissão. Sai do ato de caridade e do ato religioso para ser mais profissional. A revista de enfermagem fortifica isso. Se há uma revista, se produz Ciência”, explica Jéssica Freitas de Santana Santos, historiadora pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mediadora cultural do Museu Nacional de Enfermagem (MuNEan) dos Conselhos de Enfermagem (Cofen). 

Pioneira da enfermagem no Brasil

Haddock Lobo também se preocupava com a formação das futuras gerações de enfermeiras no Brasil e com a imagem profissional que elas deveriam repassar. Para isso, deveriam controlar as próprias emoções e sentimentos, priorizando o rigor da profissão.

“O legado da Rachel é pensar no perfil exemplar da profissional de enfermagem, que iria guiar a profissão para o futuro. A necessidade do rigor, de como a enfermeira se apresenta para o externo, de serem mulheres respeitadas e profissionais”, afirma Santos. 

Esse controle não era inerente ao trabalho, mas contribuía para a emancipação feminina na época. “Era importante ter esse rigor, não ser uma pessoa sentimental, porque infelizmente existia, e existe ainda, esse peso na mulher. Se hoje ainda fazem piadas sobre a mulher estar na TPM [tensão pré-menstrual] e estar sensível para tomar decisões, imagine na época da Rachel”, lembra a historiadora. 

Controle e rigor na vida pessoal

A forma como Rachel Haddock Lobo conduzia a formação das enfermeiras também era aplicada na vida pessoal. Logo após se separar do marido, Roberto da Silva Freire, médico, ela passou oito meses em um convento de freiras como forma de “salvar” a conduta moral diante de familiares e amigos. 

“O período de separação dela ocorre em um momento social em que ser uma mulher divorciada é muito mal visto. Tanto que ela fica meses internada em um convento para que ninguém associe a imagem dela a uma pessoa ‘desquitada’. Então, atrela a própria imagem ao religioso e, automaticamente, volta a ter uma validade social porque, embora tenha se separado, ela ‘compensou’ ao se voltar à vida religiosa e profissional”, explica a historiadora. 

Na sequência, Haddock Lobo dedica todo o tempo aos estudos de enfermagem e, mesmo se tornando uma referência na profissão, as homenagens que recebeu após morrer precocemente não deixaram o fim do casamento passar despercebido. 

“(…) desfeito o teu lar, Rachel Haddock Lobo, ferida na tua alma de mulher, dela tiraste o bálsamo, suplantando a dor do próximo…” e “(…) inteligente, culta pertencente a uma das famílias mais ilustres da Metrópole, muito jovem ainda foi atingida em sua afeição de esposa amantíssima por uma ferida que ninguém curava. Sem filhos para amenizar as agruras do golpe desfechado, abandonou as afeições sociais, as vaidades mundanas, integralizando-se num só ideal – o de minorar os sofrimentos dos desgraçados” foram algumas das referências nos discursos póstumos, segundo destaca artigo publicado no periódico científico Escola Anna Nery Revista de Enfermagem.

Segundo Santos, na época, a mulher precisava ter uma validação – fosse do pai, do marido ou da religião. “A Rachel usa a validação da religião para criar uma autonomia para todas as enfermeiras. A pessoa poderia não ser religiosa, mas era uma enfermeira formada pela Escola Anna Nery. Tanto que as mulheres tinham que apresentar cartas de recomendação para poder estudar lá. A ideia era que todos soubessem que aquele ambiente de sabedoria e conhecimento está formando um perfil de ‘mulheres respeitáveis’”, explica a historiadora, que reforça que, na época, apenas mulheres poderiam se tornar enfermeiras.

História de Rachel Haddock Lobo: da escola para guerra

Um dos primeiros contatos de Haddock Lobo com a profissão veio da Primeira Guerra Mundial, da qual participou como voluntária da Cruz Vermelha Francesa, em 1918. Na época, ela tinha 27 anos. 

Em 1922, recebeu a Cruz da Legião da Honra, como recompensa pela atuação durante os conflitos, e voltou à França para a formação na École des Enfermiéres de L’Assistance Publique, durante os dois anos seguintes. 

Logo que retornou ao Brasil, ela atuou na organização filantrópica Fundação Graffée Guinle e, pouco tempo depois, foi chamada para a Escola de Enfermeiras Anna Nery, da qual se tornou diretora em 1931, após a pós-graduação nos Estados Unidos, por meio de uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller. 

Na Escola de Enfermeiras, ela deu aulas de História da Enfermagem e Ética, e de Massagem. No Hospital São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro, criou um curso especial que ensinava às mães de classes menos favorecidas a preparar os alimentos para a família.

Quando a Revolução Constitucionalista de 1932 estourou em São Paulo, Haddock Lobo organizou o chamado Serviço de Enfermeiras, em Buri (SP), para atuar nas linhas de frente do combate e atender os feridos. 

Em maio de 1933, a enfermeira foi submetida a uma cirurgia de retirada da vesícula biliar. Quatro meses depois, morreu em decorrência de complicações pós-cirúrgicas. Ela tinha 42 anos. 

O reconhecimento de Haddock Lobo não foi apenas nacional, mas também em outros países, com a participação em diferentes associações profissionais. 

Entre elas: International Council of Nurses Board of Education, nos Estados Unidos, e, no Brasil, na Associação de Enfermeiras Diplomadas Brasileiras, Cruz Vermelha, Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, Associação Pró-Temperança e Associação Cristã Feminina.

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