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Dia da Mulher Negra: entenda como o racismo impacta a saúde

Neste Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, mostramos o cenário de desigualdade e caminhos para mudá-lo.

Ilustração mostra sala de espera de consultório médico vazio e quadro de Tereza de Benguela

Você sabe o significado da palavra racializar? O verbo tem a função de categorizar ou dividir algo de acordo com a raça. Na prática, pode ser olhar atentamente para as particularidades que uma etnia passa dentro da sociedade.

O dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, reforça a necessidade de racializar a vivência da mulher negra e entender o racismo que ainda existe no país, como combatê-lo, e também como ele impacta a saúde. 

Afinal, mulheres afrodescentes estão no grupo de maior propensão a doenças físicas e mentais, como hipertensão e ansiedade. 

Um estudo da Universidade Federal de Pernambuco, porém, identificou que “os problemas de saúde mais frequentes entre elas estão relacionados a causas evitáveis”. 

Por isso, a medicina preventiva e o acompanhamento multidisciplinar ganham ainda mais importância quando pensamos na racialização da mulher negra na saúde. 

A reivindicação por direitos básicos como a saúde foi defendida em 1992, em Santos Domingos, na República Dominicana, durante o encontro de mulheres negras. A data foi criada na ocasião, em que as ativistas cobravam a ONU (Organização das Nações Unidas) por ações concretas para frear a opressão de raça e gênero.

No Brasil, o dia 25 de julho também homenageia a líder Tereza de Benguela, do Quilombo do Piolho, em Mato Grosso. Vista como rainha nos anos de 1700, ela construiu uma estrutura política, econômica e administrativa para trazer melhores condições para negros e índigenas em resistência à escravidão.

Um olhar para a saúde da mulher negra

Para Lúcia Xavier, diretora da organização Criola, que promove iniciativas para garantir os direitos das mulheres negras, a explicação para os índices preocupantes da saúde desse grupo está na falta de comprometimento. 

“O racismo tende a ser desconsiderado ou camuflado pela ideia de que somos todos iguais, o que não é real”, defende a assistente social.

Com isso, a saúde e a população negra foram estruturalmente distanciadas, dificultando diagnósticos precoces e atendimento humanizado. Segundo Lúcia, mulheres negras relatam olhares distantes e desconfiança, negligência médica diante dos sintomas e, consequentemente, medo de ter que lidar com esses episódios de opressão.

Em 2006, pensando nesse cenário, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) foi criada para atuar com um instrumento antirracista no SUS (Sistema Único de Saúde). Por meio dela, a comunidade tem um respaldo que vai desde a comunicação, visando prevenção de doenças, a protocolos a serem usados em tratamentos e procedimentos. 

Índices desiguais 

O caminho que um paciente percorre até um diagnóstico impacta diretamente nos resultados de tratamento e, consequentemente, no prognóstico e na expectativa de vida. 

Isso vale também para a gravidez, em que o pré-natal é essencial para garantir bem-estar e segurança para a mãe e o bebê.

Segundo a ONG Criola, a mortalidade materna de grávidas e puérperas negras por conta da Covid-19, entre 2020 e 2021, foi 78% maior do que os óbitos das mulheres brancas no país. 

O dado vai de encontro com um levantamento feito pelo Ministério da Saúde em 2019 sobre consultas de pré-natal no SUS. De acordo com o órgão, 81% das parturientes brancas realizaram, no mínimo, sete consultas, enquanto as mulheres pretas e pardas tiveram o índice de 68,1%.

Impacto na saúde física

Com pesquisas feitas ao longo das últimas décadas, especialistas puderam mapear doenças que costumam acometer principalmente a população negra. Diabetes, hipertensão, anemia falciforme, deficiência associadas à glicose, obesidade e glaucoma integram a lista de patologias.

Segundo o PNSIPN, o diabetes tipo 2 atinge majoritariamente pretos e pardos. O programa identificou que mulheres negras possuem 50% a mais de chances de serem diagnosticadas com a patologia do que mulheres brancas.

A enfermeira gestora da Alice, Luciana Florindo, destaca que as causas da maioria dessas doenças nascem na ausência de qualidade de vida. 

“O que infringe mais a população negra são fatores socioeconômicos. No caso da hipertensão, por exemplo, há uma corrente que justifica o corpo negro criou um mecanismo de sobrevivência para reter mais sódio por conta da desidratação no período da escravidão, mas o verdadeiro impacto está no racismo estrutural e institucional”, aponta.

Segundo a enfermeira, ter acesso a hábitos saudáveis, como atividade física e alimentação equilibrada, e a assistência médica multidisciplinar frequente e respeitosa impediria boa parte do agravamento dessas condições.

Ilustração mostra
Atividade física dia da mulher negra

Histórico familiar

Já no caso do glaucoma e da anemia, estudos apontam que o fator fisiológico aumenta a incidência dessas patologias entre pretos e pardos. 

A anemia falciforme, que altera o formato dos glóbulos brancos e, assim, facilita o seu rompimento, afeta de 2% a 6% da população brasileira, sendo que negros têm maior predominância, como aponta o Ministério da Saúde.

“O glaucoma, por exemplo, é uma doença silenciosa. Ele começa com uma dificuldade ocular, pode ser agravado pelo diabetes e pela miopia, e não tem cura. O mais importante é ter acompanhamento contínuo para minimizar o aumento da pressão ocular e desenvolvimento da doença”, orienta a enfermeira.

Saúde mental e acolhimento

A junção dos desafios de gênero e raça colocam as mulheres negras ainda mais próximas de transtornos mentais, como depressão e ansiedade

A somatização de desafios enfrentados desde o nascimento culminam em quadros de descrença das próprias habilidades, como na síndrome do impostor, estado de estresse contínuo, bipolaridade, entre outros.

Para Luciana Florindo, mulheres negras podem procurar apoio em grupos afrocentrados, iniciativas compostas majoritariamente por pessoas afrodescendentes. 

“Às vezes, uma pessoa que está perto de você ajuda nesse fortalecimento, abre os olhos em relação não só aos pontos negativos, mas em criar ferramentas de enfrentamento, como atividade de psicoeducação, religiosidade, lazer, entre outros”, aconselha a enfermeira sobre mudanças para uma rotina de proteção e autocuidado.

Além disso, Luciana Florindo também aponta, quando possível, a busca por profissionais negros. Dessa forma, especialmente as pessoas que lidam com traumas e o medo de enfrentar o racismo em um consultório, podem se sentir mais confortáveis e acolhidas. 

“Quando temos a possibilidade de fazer essa escolha, estimulamos uma forma de inclusão e, posteriormente, a reparação”, reflete a enfermeira, que completa: “Na Alice, por exemplo, o atendimento é feito de forma integral, como analisando o histórico de saúde, mas também com uma abordagem baseada na escuta terapêutica e na criação de um vínculo entre profissional e paciente.”


Porque plano de saúde já não é mais suficiente.

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